Por se tratar de um jogo de apostas, as pessoas às vezes relacionam o pôquer aos cassinos, aos jogos de azar e ao submundo do crime. Contudo, essa não é a realidade da maior parte das mesas de pôquer existentes. Em 2010, a Federação Internacional de Pôquer (IFP) conseguiu o reconhecimento do jogo de pôquer como um esporte da mente, como também são considerados o xadrez, o bridge, as damas e o go.

O pôquer possui diversos modos diferentes de ser jogado, conhecidos como as modalidades do pôquer. Atualmente, a modalidade mais famosa e jogada em todo o mundo é o Texas Hold’em. Para entender bem esse formato é preciso antes entender alguns conceitos básicos do pôquer, ou seja, como se forma uma mão de pôquer, quais tipos de mãos existem e os seus respectivos valores.

A mão de pôquer é um termo utilizado para descrever um grupo de 5 cartas quaisquer do baralho tradicional, aquele com 52 cartas. Dependendo das cartas que formam a sua mão, você pode possuir um bom jogo ou um péssimo jogo. A classificação das mãos segue uma nomenclatura própria. Acompanhemos na ilustração abaixo:

Quando ocorre um empate entre duas mãos de mesmo valor, a carta mais alta é sempre a que desempata. Ou seja, se o jogador X e o jogador Y tiverem uma sequência, a sequência com a carta mais alta vence. Caso as duas sequências sejam iguais, o jogo empata, e o valor do pote (todas as fichas que foram apostadas na rodada) é dividido entre os dois jogadores.

O Ás é considerado a carta mais alta e, ao mesmo tempo, pode ser utilizado como a mais baixa para formar uma sequência com 2, 3, 4 e 5.

Na modalidade Texas Hold’em, cada jogador recebe apenas duas cartas e forma a mão de pôquer utilizando 3 das demais cartas expostas na mesa, respeitando sempre a quantidade de cartas que formam a mão de pôquer, ou seja, exatamente 5 cartas. As cartas da mesa que são utilizadas para compor a mão de pôquer no Texas Hold’em são coletivas e são utilizadas também pelos demais jogadores para compor suas mãos.

O conjunto de cartas coletivas expostas totaliza 5 cartas. Contudo, elas não são expostas de uma única vez. Antes que cada carta da mesa seja exposta, e depois que todas estão dispostas, acontece um turno de apostas.

No início de uma partida de pôquer, um dos jogadores é sorteado para ser o dealer (D). O Dealer é a pessoa que embaralha e distribui as cartas em cada rodada, começando a distribuição pela pessoa à sua esquerda e seguindo no sentido horário. Para facilitar a visualização de quem é o dealer, em geral, se utiliza um botão branco com a letra “d” na frente do jogador que está distribuindo as cartas nessa rodada. No final de cada rodada, o botão de dealer segue no sentido horário para o próximo jogador.

Após o dealer, e sempre que há pelo menos 3 jogadores envolvidos no jogo, ficam sentados, no sentido horário, os jogadores denominados de small blind (SB) e big blind (BB).

EXEMPLO DE JOGO COM 10 JOGADORES

O SB e o BB são, em geral, os únicos jogadores que antes mesmo de receber as 2 cartas iniciais devem apostar, de modo obrigatório, um valor determinado de fichas. O BB é o valor mínimo de aposta que pode ser feito a cada turno e que foi fixado, em comum acordo com todos os jogadores, no início da partida. O SB aposta obrigatoriamente metade desse valor.

Essa aposta inicial ocorre para que os jogadores envolvidos na rodada se sintam atraídos a jogar e a receber como prêmio o total apostado. Todas as fichas apostadas ficam dispostas no centro da mesa em um monte denominado de pote.

Vamos imaginar que começamos uma partida de pôquer com fichas iniciais que totalizam 1.000 unidades. O valor do BB

acordado e fixado é em 20 unidades. Logo, o valor do SB será de 10 unidades, ou seja, metade de 20 unidades.

Antes do jogador com o botão de dealer embaralhar e distribuir as cartas, o jogador à esquerda do dealer, o SB, aposta em fichas o valor de 10 unidades,

e o próximo jogador à esquerda deste, seguindo o sentido horário, o BB, aposta em fichas o valor de 20 unidades. Dessa forma, o pote que será disputado nessa rodada, antes mesmo de as cartas serem abertas, já contabiliza um valor de fichas no total de 30 unidades.

Como funcionam as apostas

Cada mão que recebemos nessa modalidade passa por quatro turnos de apostas, chamados de pré-flop, flop, turn e river.

Um turno de apostas só termina em 2 casos:

a) quando todos os participantes envolvidos na mão concordam em não apostar nada ou quando todos os envolvidos igualam a maior aposta feita ou utilizam todas as suas fichas em uma determinada aposta. Nesse caso, o turno de aposta é encerrado e se revela um novo conjunto de cartas ou se revela a mão dos envolvidos se esse turno era o último, denominado de river.

b) quando algum participante apostar um valor que ninguém mais esteja disposto a igualar ou arriscar tudo o que possui. Nesse caso o participante que aposta o maior valor leva tudo o que foi apostado nessa rodada, e não é obrigado a revelar as cartas que possui.

Os jogadores só precisam mostrar suas mãos quando, em uma determinada rodada, pelo menos 2 jogadores envolvidos na mão apostam e pagam as apostas um do outro, até o último turno de aposta, o river. Nesse momento acontece o showdown (mostrar as cartas) e o jogador que combinar suas 2 cartas iniciais com as 5 cartas expostas formando a melhor mão de pôquer possível (exatamente 5 cartas), leva todas as fichas que estão no pote.

O turno de apostas denominado pré-flop acontece logo após a distribuição das cartas, e o primeiro a apostar nesse turno é o jogador à esquerda do BB. A vez passa para o próximo jogador sempre no sentido horário. Nesse turno, nenhuma carta coletiva é revelada, e os jogadores apostam ou desistem apenas com base nas 2 cartas que foram distribuídas para cada um.

Se no final do pré-flop existir mais do que um jogador em jogo, o dealer revela 3 cartas coletivas, chamadas de flop, e um novo turno de apostas se inicia.

Cada jogador envolvido na mão possui agora uma mão completa de pôquer, as suas 2 cartas iniciais combinadas com as 3 coletivas reveladas pelo flop. Com base na força dessa mão, o turno de apostas do flop começa pelo jogador envolvido na mão à esquerda do dealer, seguindo pelo sentido horário.

Se no final do flop existir mais do que um jogador em jogo, o dealer revela mais uma carta, denominada de turn, e um novo turno de apostas se inicia. Cada jogador envolvido verifica se a nova carta melhorou sua mão, elevando seu valor, ou a piorou, melhorando a mão de um adversário ao invés da sua. Com base nisso, o turno de apostas do turn começa pelo jogador envolvido à esquerda do dealer, seguindo o sentido horário.

Se no final do turn existir mais do que um jogador em jogo, o dealer revela mais uma carta, denominada de river, e um novo turno de apostas se inicia. Cada jogador envolvido verifica se a nova carta melhorou a sua mão. Com base nisso, o turno de apostas do river começa pelo jogador envolvido na mão à esquerda do dealer, seguindo o sentido horário.

Se no final do river existir mais do que um jogador em jogo, eles revelam a sua mão começando por aquele que apostou, e seguindo para o próximo no sentido horário. Caso nenhum jogador tenha feito apostas, o jogador à esquerda do dealer, no sentido horário, que ainda esteja no jogo começa mostrando o seu jogo.

Após um jogador mostrar sua mão, o próximo jogador pode não mostrar a sua, e consequentemente ceder o pote para o jogador que mostrou sua mão. Isso só será feito se o jogador perceber que sua mão é pior do que a mão daquele que mostrou.



s - spades (espadas) | h - heart (copas) | d - diamond (ouros) | c - clubs (paus)

Contando cartas

Agora que aprendemos as regras, podemos entender como decidimos se vale a pena pagar ou não uma determinada aposta utilizando a matemática. Como podemos fazer isso? Simples: contando as cartas que existem no baralho e verificando qual é a probabilidade de uma carta que nos ajuda a ganhar ser revelada.

Vamos acompanhar um caso de jogo através do seguinte o exemplo:

Imaginemos que recebemos de início as cartas A e 7 do mesmo naipe, que denominamos em pôquer de suited, e representamos através de um “s” no final, nesse caso, “A7s”.

Um determinado jogador, chateado por sua “maré de azar”, apostou no pré-flop todas as fichas que possuía, totalizando 60 unidades, sem sequer ver as suas cartas. Nós, mais sortudos, possuímos 900 fichas e temos “A7s” na mão. Desse modo, podemos arriscar com tranquilidade fichas no total de 60 unidades para entrar nesse jogo e tomar todas as fichas do “azarado”. Mas será que vale a pena?

Precisamos verificar o valor do pote para ver se a quantidade de fichas que vamos receber compensa o risco. O pote com os blinds (BB e SB) iniciais de 10 e 20 fichas totaliza agora 90 fichas, ou seja, 10 fichas do SB + 20 fichas do BB + 60 fichas do jogador “azarado”.

Se todos os outros jogadores desistirem, nós precisamos decidir se entramos ou não no jogo. Como temos “A7s”, qual é a chance de ganharmos esse pote, sabendo que o nosso adversário, que não viu suas cartas, possui uma mão aleatória?

A tabela ao lado mostra a chance de qualquer mão específica ganhar de apenas uma outra, supondo que nenhuma carta foi virada e contando que as 5 cartas serão viradas.

Na primeira coluna temos as mãos iniciais e na segunda coluna a probabilidade de cada mão vencer uma mão aleatória antes do flop, supondo que as 5 cartas serão viradas.

Deste modo, o nosso “A7s” tem 60,9840% de chance de ganhar de uma mão aleatória. Arredondemos para 60% de modo a facilitar nossas contas. A questão permanece: vale a pena pagar para ver?

Vamos descobrir juntos, usando a seguinte equação:

expectativa de valor (EV) = chance de ganhar × valor ganho – chance de perder × valor da aposta

EV = 60% × 180 – 40% × 90 = 108 – 36 = 72

A conta acima demonstra que a expectativa de valor dessa jogada é positiva em 72 unidades. Ou seja, se essa situação ocorrer 10 vezes, mesmo que se perca 4 das 10 vezes (40%), e se ganhe as outras 6 (60%), o nosso ganho seria de 720 unidades, ou seja, uma média de 72 unidades toda vez que realizamos essa jogada. Pura matemática e nenhuma sorte!

Os profissionais do pôquer precisam decorar essas probabilidades para saber quando vale investir suas fichas, gerando valor em suas jogadas, acumulando fichas e conseguindo obter bons resultados no longo prazo. Na maioria dos torneios internacionais, alguns contando com a participação de mais de 8.000 jogadores, geralmente vemos os mesmos profissionais chegando entre os 10 primeiros e até ganhando torneios seguidos. Se a sorte fosse o único fator a ser considerado, essas pessoas poderiam ser consideradas as mais sortudas do mundo.